A FIGURA DO HOMEM BRANCO. UMA REPRESENTAÇÃO
O uso do colar pode remeter-nos para a apropriação de um hábito indígena, mas o homem branco era visto como um ser de vícios. O seu discurso não correspondia, a maioria das vezes, às suas ações, perturbadoras da ordem social vigente, tentando perverter a cultura autóctone. A troca cultural desenvolveu-se através de um predomínio da cultura europeia, trazida pelos colonos que os indígenas procuravam imitar, como seja o exemplo do uso de determinados objetos do quotidiano, ao gosto europeu, muitos deles presentes na atual coleção de Antropologia do Museu da Ciência da Universidade de Coimbra.
Trata-se de uma escultura masculina, em madeira, monobloco, sentada numa espécie de banco retangular, com os pés numa peanha redonda. Cabeça com chapéu preto multiforme, olhos embutidos e revestidos por espelho, delineados, com a íris assinalada a preto. Nariz de abas largas e boca proeminente de lábios grossos. Do pescoço parte uma casaca preta com asas de grilo, com um colar esculpido no peito. A mão esquerda segura uma garrafa pelo gargalo, com a base apoiada no joelho. A outra mão, semifletida, apoia-se no joelho, com os dedos quase inexistentes. O sexo está em evidência. Pés descalços com representação de todos os dedos. Colar e lábios alaranjados e restante conjunto pintado a caulino branco.
De tão vasto e diversificado conjunto incorporado em 1897, destacamos esta escultura que alude à representação do homem branco: a imagem que o homem negro tinha do colonizador.
Em finais do séc. XIX, o Gabinete de Antropologia do Museu de História Natural da Universidade de Coimbra registou uma importante incorporação de 517 artefactos africanos, adquiridos pela Universidade de Coimbra pela quantia de 412.540 Réis, conforme correspondência datada de 1897. Integravam a coleção de Alberto Correia (funcionário dos Caminhos de Ferro em Angola), um importante colecionador portuense que ganhou destaque na Exposição Insular e Colonial Portuguesa, realizada no Palácio de Cristal Portuense em 1894. Grande parte deste lote de mais de meio milhar de objetos foi exposta nesta mostra que pretendia divulgar não só os inúmeros produtos coloniais, mas também os que a metrópole poderia fornecer aos diferentes territórios. Ainda que com claros objetivos comerciais, industriais e agrícolas, a presença de objetos etnográficos foi relevante, quantitativa e qualitativamente.
Esta escultura pode ser vista na exposição: “Gabinete de Curiosidades, uma interpretação”
ANT.Ang.1145
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