Museu da Ci�ncia - Universidade de Coimbra

LIVRO DE LEMBRANÇAS DOS PLANETAS

António Olaio
exposição de artes plásticas

A exposição “Livro de lembranças dos planetas” assume o nome pelo qual é conhecido um livro de astronomia de 1598, manuscrito que faz parte da memória da investigação científica da Universidade de Coimbra, pertencendo ao espólio da sua Biblioteca Geral.
No português do séc. XVI, dizer “das lembranças dos planetas” seria o mesmo que dizer “de conhecimentos sobre os planetas”. Mas, lido hoje, este nome coloca nos próprios planetas a possibilidade de terem lembranças.
Esta humanização dos planetas que, desde logo, o título nos parece propor, vê-se confirmada pela forma como, num livro profusamente ilustrado, o Sol e a Lua aparecem. Planetas de rosto humano, como se os homens de ciência procurassem primeiro esta aproximação, esta identificação com o cosmos, para depois o tentar conhecer. Como se o estudo do universo tivesse de passar, antes de tudo, por um processo de introspeção.
Por outro lado, neste livro, a investigação, as minuciosas anotações, convivem com imagens laboriosamente ornamentadas, como se a ciência não prescindisse desta moldura de qualificação estética, desta enfatização do valor científico pelo valor do ornamento.

Tudo isto será certamente anacrónico na forma como hoje se faz ciência, mas não será de todo anacrónico se nos colocarmos no ponto de vista da arte.
E é, sobretudo, no campo de possibilidades que, na arte, este livro como ponto de partida despoleta que esta exposição se constrói.

A sala de exposições temporárias do Laboratório Chimico, desde logo cria a expectativa de uma relação com o Museu da Ciência, e, consequentemente, de uma relação com a produção de conhecimento.
Assim, a arte apresenta-se como o lugar onde o olhar pode acontecer em todas as escalas e, mesmo, em todas as escalas simultaneamente. Onde o cósmico e o doméstico poderão ser indiscerníveis. Onde os espaços se desdobram, expandindo-se e se contraindo.

António Olaio

 

LIVRO DE LEMBRANÇAS DOS PLANETAS
Livro de lembra[n]cas dos planetas repartido em quatro tratados ... [manuscrito]. 1593. [151] f. : papel, il., 73 desenhos a sépia e aguarelados, dos quais 13 diagramas móveis ; 279x190 mm.
BGUC Ms. 440

Se existe um manuscrito na Biblioteca Geral que seja o favorito de todos os bibliotecários, ele é, sem dúvida, este LIVRO DE LEMBRANÇAS DOS PLANETAS. Pela sua beleza, pela sua singularidade, por ser – porventura – o único manuscrito científico que todos sabem reconhecer e, até certo ponto, entender. Porque os bibliotecários, especialistas no objeto-livro, são especialistas em assunto nenhum, científico ou literário. Habitualmente com um deficit de base em cultura científica, chegam a este favor através da beleza das ilustrações e da novidade dos volverinos ou alidades móveis.
Calculadoras de papel, verdadeiras máquinas, estas alidades ainda podem ser usadas hoje, por exemplo para calcular as horas da maré no porto de Lisboa, como nos confidenciou ter feito – e com aceitável precisão - o senhor Comandante Carlos Juzarte Rolo, outro dos muitos leitores da Biblioteca que se apaixonaram por este manuscrito encantatório. A que chama uma “Fábula”.
Não são tanto as suas qualidades científicas que o tornam um dos favoritos de bibliotecários e de leitores, é, sobretudo, a decoração que o destaca na coleção de manuscritos da Biblioteca Geral. Porque essa pode ser entendida por todos, cientistas, literatos ou... artistas, como no caso do autor desta exposição.
Do ponto de vista científico, é uma obra de 1593, uma data na fronteira da astrologia com a astronomia, na fronteira da crendice com a medicina moderna, época interessantíssima em que as ciências se começam a afirmar mas sem se conseguiram afastar completamente de crenças ancestrais, vindas da época medieval: como a da influência dos astros sobre as várias zonas do corpo humano, ou a influência da sua posição sobre a morbilidade dos doentes ou a fertilidade das mulheres, que o Livro de Lembranças acolhe.
Numa Biblioteca com mais de 500 anos de existência, uma das perguntas mais complicadas que se podem fazer sobre os seus livros antigos é “Como entrou na Biblioteca?”. Não sabemos. Sobre este manuscrito, nada sabemos para além do que o próprio manuscrito nos consegue dizer.
O seu título completo é:

Livro de lembr[an]ças dos planetas repartido em quatro tratados : o prim[ei]ro trata da [lua] e 2º do [sol], o 3º dos 5 planetas, o 4 trata de cousas differentes e curiosas, alguãs vam em latim, e outras em romãce pera que que[m] o não souber posa gozar das que achar em romance, e tudo sub censura sanctae matris ecclesiae feito este anno de 1593 ad laude[m] dei.

Isto informa-nos logo que a data destas Lembranças (pelo menos a data inicial da compilação) é “este ano de 1593”. A mesma data aparece no início da folha 14 verso e figura também como ponto inicial da tabela de correções anuais que tinham de introduzir-se nos cálculos astronómicos (f. 26v, por exemplo).
Mas, o título diz-nos também que o texto não se ocupa apenas de astrologia, o tratado 4º é sobre outras “coisas diferentes e curiosas”. E que umas se destinam aos eruditos (“vão em Latim”) e outras à gente comum, porque vão foram escritos em português (“em romance”).
Informando-nos de que todo este trabalho foi feito para louvar a Deus (“ad laudem Dei”), este título também parece indicar que se destinava a ser publicado: pois se apresenta sob a censura da Santa Madre Igreja, palavras que habitualmente aparecem em trabalhos sujeitos à divulgação pela imprensa.
E a isso não se opõe (antes pelo contrário) o desenho das armas nacionais que figura na folha 8.
Não sabendo quem foi o autor, sabemos contudo que é um original, um autógrafo: correções da mesma letra em vários lugares, traçados a lápis de grafite e picotados para auxiliar o desenho das figuras (f. 10).
No corpo dos Tratados, são várias as referências ao local onde foi redigido, como “este Convento da Serra de Ossa” (f. 36v) , “in conventu MONTIS OSSE” (f. 53) e “deste Convento da Serra de Ossa (onde este foi escrito)” (f. 59v), o que se confirma também pela latitude de 38º, “neste meridiano de 38 graus onde foi graduado” (f. 96). A essa latitude fica sensivelmente o Convento de Santo Antão de Vale da Infante da Serra de Ossa, da Ordem dos Eremitas de São Paulo Primeiro Eremita, onde o livro terá sido feito.
Luís de Albuquerque notou que este manuscrito contém soluções cientificamente válidas para a melhoria das tábuas de declinação solar em uso pelos navegadores portugueses, mas que parece não terem tido qualquer acolhimento nem influência na ciência náutica da época. Não admira, se o manuscrito estivesse guardado naquele ermo alentejano, dentro de um convento de frades Eremitas.
Mas o estudo do livro científico português está apenas a começar. Se nos lembrarmos de que existem outros manuscritos de fatura muito semelhante em bibliotecas portuguesas, acreditamos que talvez não falte muito para podermos saber quem foi o seu autor e onde teve ele a formação científica que este livro tão amplamente demonstra: aqui na Universidade de Coimbra ou na Aula da Esfera de Lisboa?

                                                                                            Coimbra, 4 de julho de 2016
                                                                                                  A. E. Maia do Amaral

Bibliografia:
Carlos Zuzarte Rôlo - "Fábula : o Ms. 440", Plátano: Revista de Arte e Crítica de Portalegre. 4 (out. 2008) p. 19-33.

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